Ser ou não ser eis a rede social

02/09/2019
Ser ou não ser eis a rede social

Alan de Jesus

E o verbo se fez rede e habitou entre nós. No princípio era o Orkut, depois a interação se ampliou e surgiu o Facebook. Nos momentos seguintes as imagens ganharam mais formas e filtros e ficaram mais instantâneas, gerando o Instagram e o Snapchat. Para alcançar mais pessoas de forma mais rápida, o Twitter ganhou uma página eletrônica e se popularizou com 140 caracteres. Desde então, a cada mês uma nova rede social surge e alcança mais seguidores. Proporcionalmente, houve também um crescimento de opiniões dissidentes que se encontram em embates a cada dia mais dicotômicos. O que antes era bom vem se tornando um lugar alimentado rotineiramente por intolerância, ódio, indiferença, discriminação, difamação e desinformação. É possível pensar hoje uma rede sem divisões, como um local de propagação da mensagem de Cristo?
Para o Papa Francisco: “a internet é um dom de Deus”. Para o pesquisador de Estudos de Mídia e autor, dentre outros, de “Cultura da Convergência”, Henry Jenkins, ela é uma convergência por meio de um “fluxo de conteúdos através de múltiplas plataformas de mídia”. Entre o primeiro e o segundo entendimento encontramos uma aproximação que nos permite refletir sobre possíveis formas de minimizar a dissidência nas redes sociais e possibilitar mudanças no seu uso.
O Pontífice afirma que as comunicações “trouxeram consigo uma ampliação dos horizontes, um crescimento, para tantas pessoas”; já para o pesquisador, o “processo chamado convergência de modos está tornando imprecisas as fronteiras entre os meios de comunicação”. Essa ampliação social e tecnológica traz consigo uma ausência de limites. Entre o que eu faço na minha rede e o que os outros fazem nas suas, começou a se delimitar uma linha ténue que fácil se quebra a partir do primeiro embate paradigmático em um post, principalmente em assuntos como política, religião ou futebol.

O fato é que a conjugação nas redes sociais se tornou algo mais complexo que o português poderia prever. O “eu” passou a ser o “nós”; este, por sua vez, também concorre com o “eles”, ou seja, o individual não se restringe a sua singularidade, encontra-se dissolvido em múltiplas plataformas e, por isso, acaba assumindo posicionamentos alheios aos seus a partir das vocalizações nesse espaço dito público. O que pode ser uma possível justificativa para o aparecimento de lados tão extremos de pensamento no virtual.

A noção de convergência aqui apresentada parte do princípio de que as diferentes mídias tendem a ser ressignificadas na experiência dos indivíduos, gerando novas formas de vivenciar o fenômeno. O que pode ser aplicado ao desejo do Papa Francisco, quando diz: “peçamos juntos para que as redes sociais não anulem a personalidade de cada pessoa, mas que favoreçam a solidariedade e o respeito pelo outro na sua diferença”.

Entre o concordo e não concordo com o seu post, há uma série de implicações que estão além dos seus gostos pessoais. Afinal as redes sociais informam, mas não formam. Entendê-las, portanto, como um espaço da presença do Divino é propiciar uma experiência de convergência com Cristo. Uma intimidade cristã que pode ser ampliada para milhões de pessoas em um único clique. Pensar novas estratégias de utilização das redes é alimentar a fé diariamente em stories e feeds. Enquanto isso ainda não é uma realidade concreta ideal, comecemos a assumir nossas escolhas religiosas a partir da compreensão do respeito e da solidariedade. Afinal, “ser ou não ser” é uma escolha pessoal feita ao criarmos nossas contas na rede. Talvez esse pensamento já seja o caminho inicial para a mudança epistemológica que nós precisamos.